Bolsonaro na ONU: os 5 alvos principais do discurso do presidente

AFP
Em sua estreia na ONU, durante a abertura da 74ª Assembleia-Geral, em Nova York, nos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro fez nesta terça-feira (24/09) um discurso agressivo em que criticou países como Cuba e Venezuela, e defendeu a soberania do Brasil sobre a Amazônia.
Por tradição, um representante do Brasil é sempre o primeiro a falar.
A BBC News Brasil selecionou quatro destaques do discurso do presidente brasileiro nas Nações Unidas. Confira.

1. Socialismo

Bolsonaro abriu seu discurso dizendo que o Brasil "ressurge depois de estar à beira do socialismo". Ele fez duras críticas a Cuba, em especialmente ao programa Mais Médicos — que levou médicos cubanos para trabalhar no Brasil — e também à Venezuela.
Os cubanos deixaram o programa, iniciado durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, com o rompimento do acordo de colaboração por parte de Havana após a eleição de Bolsonaro.
"Meu país esteve muito próximo do socialismo, o que nos colocou numa situação de corrupção generalizada, grave recessão econômica, altas taxas de criminalidade e de ataques ininterruptos aos valores familiares e religiosos que formam nossas tradições."

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Segundo Bolsonaro, "a história nos mostra que, já nos anos 60, agentes cubanos foram enviados a diversos países para colaborar com a implementação de ditaduras. Há poucas décadas tentaram mudar o regime brasileiro e de outros países da América Latina. Foram derrotados!".
Bolsonaro acrescentou que o Brasil está trabalhando com os Estados Unidos para que a "a democracia seja restabelecida na Venezuela, mas também nos empenhamos duramente para que outros países da América do Sul não experimentem esse nefasto regime".
"O Foro de São Paulo, organização criminosa criada em 1990 por Fidel Castro, Lula e Hugo Chávez para difundir e implementar o socialismo na América Latina, ainda continua vivo e tem que ser combatido".

2. Economia

Em seguida, Bolsonaro defendeu a abertura da economia. Destacou o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, alcançado em seu governo. Prometeu ainda novos acordos "nos próximos meses".
Além disso, falou sobre a adesão do Brasil à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
"Não pode haver liberdade política sem que haja também liberdade econômica. E vice-versa. O livre mercado, as concessões e as privatizações já se fazem presentes hoje no Brasil."
"A economia está reagindo, ao romper os vícios e amarras de quase duas décadas de irresponsabilidade fiscal, aparelhamento do Estado e corrupção generalizada. A abertura, a gestão competente e os ganhos de produtividade são objetivos imediatos do nosso governo."
"Estamos abrindo a economia e nos integrando às cadeias globais de valor. Em apenas oito meses, concluímos os dois maiores acordos comerciais da história do país, aqueles firmados entre o Mercosul e a União Europeia e entre o Mercosul e a Área Europeia de Livre Comércio, o EFTA. Pretendemos seguir adiante com vários outros acordos nos próximos meses."
"Estamos prontos também para iniciar nosso processo de adesão à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Já estamos adiantados, adotando as práticas mundiais mais elevadas em todo os terrenos, desde a regulação financeira até a proteção ambiental."

3. Amazônia

Bolsonaro defendeu a soberania do Brasil sobre a Amazônia. Reforçou que a Amazônia não é um "patrimônio da humanidade" e tampouco "o pulmão do mundo".
Criticou ainda o que chamou de "os ataques sensacionalistas" de "grande parte da mídia internacional devido aos focos de incêndio".
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram um aumento expressivo no número de incêndios florestais neste ano no Brasil, na comparação com igual período do ano passado.
Após a divulgação dos números, Bolsonaro demitiu o então diretor-geral do órgão, Ricardo Galvão.
"Em primeiro lugar, meu governo tem um compromisso solene com a preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável em benefício do Brasil e do mundo."
"Nesta época do ano, o clima seco e os ventos favorecem queimadas espontâneas e criminosas. Vale ressaltar que existem também queimadas praticadas por índios e populações locais, como parte de sua respectiva cultura e forma de sobrevivência."

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"Problemas, qualquer país os tem. Contudo, os ataques sensacionalistas que sofremos por grande parte da mídia internacional devido aos focos de incêndio na Amazônia despertaram nosso sentimento patriótico."
"É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade e um equívoco, como atestam os cientistas, afirmar que a nossa floresta é o pulmão do mundo."
Segundo Bolsonaro, "valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista. Questionaram aquilo que nos é mais sagrado: a nossa soberania".
"Um deles por ocasião do encontro do G7 ousou sugerir aplicar sanções ao Brasil, sem sequer nos ouvir", disse, em alusão indireta ao presidente da França, Emmanuel Macron.
Bolsonaro também reforçou que o Brasil "não vai aumentar para 20% sua área já demarcada como terra indígena, como alguns chefes de Estado gostariam que acontecesse". Disse ainda que os indígenas "são seres humanos, exatamente como qualquer um de nós".
Também criticou o cacique Raoni Metuktire, do povo caiapó, liderança indígena de destaque internacional.
"A visão de um líder indígena não representa a de todos os índios brasileiros. Muitas vezes alguns desses líderes, como o cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia."
"Infelizmente, algumas pessoas, de dentro e de fora do Brasil, apoiadas em ONGs, teimam em tratar e manter nossos índios como verdadeiros homens das cavernas."
Bolsonaro afirmou que a mentalidade colonialista não pode regressar à ONU e criticou França e Alemanha.
"Não podemos esquecer que o mundo necessita ser alimentado. A França e a Alemanha, por exemplo, usam mais de 50% de seus territórios para a agricultura, já o Brasil usa apenas 8% de terras para a produção de alimentos. 61% do nosso território é preservado."
Segundo o presidente brasileiro, seu governo tem uma política de "tolerância zero para com a criminalidade, aí incluídos os crimes ambientais".
Ele disse que qualquer "iniciativa de ajuda ou apoio à preservação da Floresta Amazônica, ou de outros biomas, deve ser tratada em pleno respeito à soberania brasileira".
"Também rechaçamos as tentativas de instrumentalizar a questão ambiental ou a política indigenista, em prol de interesses políticos e econômicos externos, em especial os disfarçados de boas intenções. Estamos prontos para, em parcerias, e agregando valor, aproveitar de forma sustentável todo nosso potencial."

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4. Criminalidade
O presidente brasileiro destacou a redução da criminalidade que, segundo ele, tem ocorrido em seu governo. "Hoje, o Brasil está mais seguro e ainda mais hospitaleiro", afirmou.
Citou os quase 70 mil homicídios anuais no Brasil, dizendo que os policiais militares "eram o alvo preferencial do crime", sem citar o caso que nesta semana gerou comoção no Brasil da menina Ágatha Félix, de oito anos, que foi atingida por um tiro e morta no Complexo do Alemão, no Rio.
Também disse que supostos "presidentes socialistas" que o antecederam no Brasil "desviaram centenas de bilhões de dólares comprando parte da mídia e do parlamento".
E citou seu ministro da Justiça e Segurança Pública, o ex-juiz Sergio Moro, atribuindo a ele o julgamento e punição dessas pessoas "graças ao seu patriotismo, perseverança e coragem".

5. Ideologia

Na parte final de seu discurso, Bolsonaro investiu contra o que chamou de "sistemas ideológicos de pensamento que não buscavam a verdade, mas o poder absoluto" e relacionou isso ao ataque que sofreu durante a campanha, quando foi esfaqueado.
Afirmou que "a ideologia" teria se instalado "no terreno da cultura, da educação e da mídia, dominando meios de comunicação, universidades e escolas".
Também teria invadido "lares" para, em suas palavras, "investir contra a célula mater de qualquer sociedade saudável, a família".
"Tentam ainda destruir a inocência de nossas crianças, pervertendo até mesmo sua identidade mais básica e elementar, a biológica", afirmou.
O presidente brasileiro destacou também o "politicamente correto" que, segundo ele, "passou a dominar o debate público para expulsar a racionalidade e substituí-la pela manipulação".
"A ideologia invadiu a própria alma humana para dela expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos revestiu", afirmou. Essa "ideologia", segundo ele, deixou "rastro de morte, ignorância e miséria por onde passou".
E, disse Bolsonaro, ele próprio foi "vítima", quando foi esfaqueado por um "militante de esquerda". O então candidato à Presidência foi esfaqueado por Adélio Bispo de Oliveira em setembro de 2018.
O autor do crime foi detido e, julgado incapaz de responder pelos próprios atos, encaminhado a um hospital psiquiátrico onde permanecerá recolhido por tempo indeterminado.

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